Ariano Suassuna e o Icó

Morreu o missionário Ariano Suassuna. Acabou-se o quengo mais fino do nordeste. Encontrou-se com o único mal irremediável.

É curioso como a vida nos surpreende. É engraçado como mesmo os fatos esperados nos chocam. 

Hoje faleceu Ariano Suassuna, e me vem à memória todos os acontecimentos que marcaram o dia em que um famoso escritor visitou uma cidadela do interior do Ceará. Quis o destino que essa cidadela fosse Icó. 

Quis o destino que eu estivesse na minha terra nesse dia. E, então, não sei por qual golpe do acaso, pelo prazo de uma manhã e uma tarde, a vida do grande escritor se cruzou com a de um entusiasmado estudante.
Eu não poderia deixar de lembrar bem de todas as coisas que vi e que ouvi, porque sabia bem que aquela provavelmente seria a última vez que eu veria Ariano Suassuna ao vivo. 

Como colaborador do noticioso ‘Icó é Notícia’, fui encarregado de fazer a cobertura da visita de Ariano a nossa cidade. E munido de câmera fotográfica, papel e caneta, entrei em campo. Ariano estava gravando um documentário biográfico, produzido e dirigido por Rosemberg Cariry. Ele havia escolhido cinco cidades brasileiras que foram determinantes para a sua formação cultural. Icó foi uma delas, para a surpresa de seus próprios habitantes.

Não me cabe recontar como foi a Aula-Espetáculo com que Ariano presenteou o público icoense naquele dia. Tudo que eu consegui registrar, até que se acabasse o meu papel e a minha memória foi posto nas três matérias que produzi. Os links estão abaixo.

Agora, eu considero mais importante reavivar o principal legado de Ariano: o seu exemplo e a sua força de vontade. E isso fica claro se o leitor imaginar um homem de oitenta e quatro anos cruzando o país em defesa de sua língua e da cultura de sua gente. 

Antes de Ariano entrar no Teatro Municipal, a sua equipe não permitiu que as duas primeiras fileiras fossem ocupadas. “...pra não atrapalhar as filmagens...”, diziam. Mas Ariano, logo que entrou, pediu que elas fossem ocupadas, porque gostava de sentir a plateia perto. Ele sentiu dificuldades para subir a íngreme escada que dá acesso ao palco do teatro e perguntou se alguém da plateia poderia ajudá-lo. Eu, que estava próximo, ao lado, o auxiliei e tive a honra de acompanhá-lo até próximo à mesa no centro do palco. 

Ariano acreditava-se imbuído de uma missão: espalhar pelo Nordeste e pelo Brasil a oportunidade de o povo, por mais carente que fosse, manter contato com a arte de verdade. E, mesmo no fim da vida, ao sentir o enfraquecimento de sua saúde e a sorrateira presença da morte, apressou-se em concluir o seu propósito.

“A língua portuguesa é meu instrumento de trabalho. Não abro mão dela de jeito nenhum...”, dizia. Incomodava-se com a invasão de palavras estrangeiras. “... Eu não dou aula-show, eu dou aula-espetáculo, porque show no meu país é uma interjeição usada para espantar galinhas...”. Ariano se recusava a aceitar a cultura de massa, que nivela o leitor ou o espectador pelo gosto médio, e que não estimula a inteligência, nem surpreende a quem presta atenção.

Eu arrisco dizer que a visita de Ariano trouxe novos ares a nossa cidade. Desde então, o histórico Teatro Municipal, que antes servia meramente como um adorno à cidade, hoje tem sido utilizado com uma frequência um pouco maior, a partir da iniciativa de artistas locais. Depois daquele 30 outubro de 2011, iniciou-se um trabalho de reavivamento cultural, não como um processo institucional, mas a partir de uma parcela da juventude que crê que a nossa cidade é capaz de produzir talentos. 

Hoje há o Festival de Cultura Icoense [Icozeiro], que já teve três edições e é realizado no mês de dezembro. Há também o Concurso Literário Icoense [CLIC], que teve a sua primeira edição em 2013. Posso dizer então que foi grande a contribuição de Ariano para os icoenses. E estes, ao observarem que alguém de fora reconhecia o valor da nossa história centenária e da nossa arquitetura, meio que lembraram quão especial é Icó.

Particularmente, o que sinto neste momento, como homem que acredita na força das palavras, é a sensação de um profundo vazio e de uma extrema compaixão pelo povo da minha cidade, da minha região e do meu país, por não termos mais conosco o exemplo vivo de Ariano Suassuna. Receio que essa seja uma perda irremediável, porque Ariano era um dos poucos artistas que seguia aquele jargão de Milton Nascimento: “ O artista deve ir onde o povo está”. Depois de tantas idas e vindas, seu corpo curvado não mais resistiu e pediu um repouso permanente.

Há dentro de mim uma profunda gratidão, por ter tido a oportunidade de ali, naqueles locais, na minha rua, quase na porta da minha casa, ter visto, ter ouvido e ter falado àquela inteligência que reuniu o conhecimento popular em personagens incríveis como João Grilo, ChICÓ, Quaderna e tantos outros. Há uma extrema alegria por ter guardado tudo na memória, por ter vivido uma coisa que eu sabia que seria única, como um menino que vê o seu super-herói predileto em ação.

E se você, leitor, me perguntar por que será que isso aconteceu. Só posso responder: “Não sei. Só sei que foi assim...”.

Vá em Paz, Ariano. Sua missão foi cumprida.

Sei que aí em cima, numa hora dessas, o Senhor já deve estar conversando com o nosso querido Emanuel negro, que deve ter nos pedido esmola em alguma rua pra testar nossa bondade. Mas me faça um último favor Ariano, vá intercedendo por mim junto a Compadecida, que eu quando morrer quero ir direto para o céu, sem nem passar pelo purgatório, “que é pra não dar gosto ao Cão”. 

23 de julho de 2014

http://www.icoenoticia.com/2011/10/ariano-suassuna-arranca-aplausos-risos.html

http://www.icoenoticia.com/2011/11/ariano-suassuna-visita-igreja-do-monte.html

http://www.icoenoticia.com/2011/11/ariano-suassuna-e-rosemberg-cariri.html


Poema do Momento Único

Existem coisas que, num dia, acontecem várias vezes.
Outras acontecem diariamente.
Existem coisas que sempre acontecem.
Outras que acontecem quase sempre.

Existem coisas que às vezes acontecem.
Outras acontecem dificilmente.
Existem coisas que quase, quase nunca acontecem.
Outras, só uma vez na vida, infelizmente.


* Texto escrito pelo advogado e formando em Medicina Heitor Muniz Amorim
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Publicado por Jornalismo

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