Sete Mortes

No raro da lucidez, entro em introspecção e penso no que me tornei. Estático, incapaz do mínimo – limpar o corpo, a roupa ou a cela -, acabo preferindo a insanidade! 

Nesta eu enfrento a multidão que me quer linchar! Cinco ou seis anos se passaram da tentativa de linchamento, mas não me sai da lembrança: nem na lucidez, nem na loucura! Como é assustador uma turba enfurecida, rebaixada às feras!

Se não estou plenamente ensandecido, gesticulando e insultando o populacho - ora real ora imaginário - estou de cócoras, embrulhado num canto da Cadeia. 

Das mãos esquálidas, faço capídulo como a me proteger do estar vivo! É doloroso me perceber-me, ter consciência de mim. Não me suporto mais. Quero a morte ou a loucura plena sem laivos de lucidez!

Dos curtos momentos de razão, vou involuntariamente à loucura. Do nada, os ossos parecem comprimir-se e a carne a acompanhá-los! Avassaladoras constrições seguidas de ferroadas profundas, um turbilhão queimante a me transformar em não ver, em não ser, em não sentir, em nada... 

E me descerro a vida do começo ao fim, sem medo nem censura. Se algum resquício de consciência, às vezes, me ocorre, escapa-se tão repentinamente que nem percebo. Leio os livros que o Dr. Jorge me traz. Minha cabeça vai explode de dor...

- Aaaaiii!...

Mundiça! Vão atacar os cães, vão trabalhar para me sustentar! Este pátio é muito pequeno, além de estar aos olhos de todos. Mas ainda fujo daqui... Ah se fujo! Serial Killer é a mãe, escravo branco! Eu não quero ver ruína de Ponte de Madeira coisa nenhuma. Você bem que podia estar em cima quando o Tietê a arrastou! Mas Deus não é tão bom assim, não é?

Desandei de vez quando o Matadouro fechou as portas. De repente fiquei sem o que mais me fascinava: morte e sangue, dezenas de bois de todos os tamanhos e cores ao abate diariamente! O operário abatedor subia no brete, erguia a marreta pesada, puxava-a com toda a força do braço forte e tum! na cabeça da rês, que bambeava e despencava-se no chão! O magarefe, então, pulava sobre a cabeça da arquejante, enfiava-lhe o punhal na garganta e o jato de sangue espirrava forte e longo!

Fechou-se o Abatedouro. Então meus dias resumiam-se a forjar barras de ferro em machados, foices, aguilhões, marretas e punhais. Eu e meu pai, das seis às seis: bate lá que bato cá; bate cá que bato lá!

Peguei meus pertences e enfiei-os em uma trouxa miúda, espetei-a numa aguilhada, dei olhadelas na mãe, pai, irmãos... Numa noite de lua grande, arrufei o vira-lata Rex e ganhei o mundo. Quase treze anos, e uma vontade doida de domar as afecções a me assolarem a cabeça psicótica e o corpo infante!

Em Tietê, encontrei a família Falchim; e foi como se eu entrasse numa miragem: eles, os Falchim, se transformavam numa manada rumo ao matadouro! Mas o velho, o pai, quase cego, como se pressentisse, fugia do abate!
A se me esplenderem súlfur e turvação. Acolheram-me os Falchim: roça, animais, subir na mangueira do terreiro e ver a vida lenta passar. Eu escrutinava meus benfeitores, e, eles eram bois! A filha mais velha, já no ponto de casar, andava me esnobando porque a pedi em namoro. 

Foi que o velho Falchim me deixara cuidando da prole enquanto tratava das vistas na capital. Então eu fechava os olhos e via e ouvia a marretada horripilante na cabeça dos bois, a punhalada na garganta e o jato de sangue a me aspergir! O esguichar se ia amenizando entre gritos e grunhidos. E de repente não mais emanava de bois, emanava da Falchim e dos filhos!

Perturbado, eu esfregava os olhos, chacoalhava a cabeça, descia da árvore e me entretinha em afazeres fúteis.

A mãe Falchim me lambia como se lambesse a um filho; os filhos desta, como se eu fosse irmão! Nem mesmo eu entendia como eles podiam me fazer tanto bem e tanto mal simultaneamente! Alba, a mais velha, sumira de casa quando lhe pedi namoro e só retornou quando o pai foi tratar-se na Capital.  

A marreta na cabeça do boi... O esguicho de sangue a me ofuscar. Eu tão cego quando o velho Falchim! O jato diminuía e eu via a mãe e os filhos se esvaecerem num mar de sangue! Eu ardia de desejo, queria fazer sexo, queria abater bois, queria ver sangue, queria sentir cheiro de sangue, queria ver vida agitada transformando-se em morte calma.

Tentei me deitar com a Falchim, mas ela se negou incisiva e veementemente! A partir disso, passou me tratava com frieza, medo, desprezo e raiva.

Depois da segunda tentativa, remoendo a recusa, trepado em cima da mangueira, tive a grande idéia: matar Maria Falchim e profanar seu cadáver! Foi o que fiz, enquanto todos dormiam. Empunhei o machado afiado e um golpe certeiro! E parti a cabeça em duas bandas; no pescoço, passei a navalha! Entre os esfacelos, nasceu e morreu um esturro agonizante, o esturro da morte!

Vestia-me sem pensar em nada, quando escutei barulho na janela: Alba me espionara e fugia pela janela para me denunciar. Capturei-a no pasto e no alpendre lhe apliquei o mesmo castigo que apliquei à mãe: uma navalhada na garganta e uma machadada na cabeça! O urro da morte saiu prensado, arrancado dos abissais da vida! afligiu-se feito uma bezerra braba, esperneou-se, esticou-se e adormeceu para sempre.

Instaurou-se o pânico entre os Falchim que restavam, e tive a certeza: eram mesmo bois! Fiz, então, o que era para ser feito: fui pegando um a um, do mais velho ao mais novo, uma machadada e uma navalhada em cada um, exceto no caçulo de olhos azuis, quase dois anos, nu, Victório... Este me lembrou Rex, o meu cachorrinho que desistiu e retornou à casa de meus pais! Talvez por se lembrar do que lhe fiz a mãe: amarrei-a no mato e a submeti à fome e sede até secar, tornar-se seca, seca mesmo, ao couro e osso até morrer!

Dispensei  Alba por estar gélida; dos seis irmãos, foi a primeira a morrer! Mas como eu estava no auge da excitação, profanei Joana, de onze anos, que eu tinha acabado de matar e ainda estava quentinha.

Quase não consegui me saciar por conta do berreiro do único sobrevivente, o loirinho, gordinho, o Vittório... É que lhe cortei o dedinho, pois ele mamava quando sangrei a mãe e, por acidente, o punhal lhe cortou o dedo. Irritei-me e decidi eliminá-lo também, apesar de ser meu afilhado. Fui ao quarto e o pequeno se esgoelava agarrado ao cadáver da genitora! Dei uma machadada e o silêncio profundo se fez. Morreu agarrado à mãe... Extirpei-lhe a cabeça e nem precisou navalhar a garganta! Um grunhidinho tímido e se foi a vida frágil.

Escrevi uma carta cujas letras borradas de sangue diziam da minha intenção de suicidar e que eu era o autor das sete mortes. Subi na mangueira e ali fiquei, nem me matei, nem fugi!  Passei o restante da noite em cima da árvore gigante e frondosa.

Pela manhã, um parente veio oferecer-se para ajudar na colheita de milho e deu com a família morta. Saiu aos gritos, e retornou com a polícia.

Todos estarrecidos ante os sete cadáveres que eram recolhidos e alinhados sob as franças da mangueira! Era-me como estar diante do matadouro mineiro a esperar o boi, que receberia a marretada do abatedor, a punhalada do magarefe e o escalpelo do dissector. Mas não havia boi! Não havia boi?!...

E o assombramento geral: avistaram-me! Desci lento sob a cantilena estéril do Dr. Jorge, o delegado - um delgado carequinha, baixinho, filho da Dona Iracema - joguei a navalha, ergui os braços e lhes disse em tranquilidade e estranha paz de espírito:

- É tudo verdade: fui eu quem matou a todos! 

Que a terra nos seja leve!


* Texto [conto] escrito e enviado pelo escritor Antônio Jota [blog do Jota]
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Publicado por Jornalismo

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