Eu sou isto: Icó! E tu, quem és?

Icó não é minha nem do Ceará; é do Nordeste, do Norte, do Sul e do Sudeste. Mas Icó quer ser mais, quer ser do mundo todo. 

Ela merece por que é bonita, charmosa, cheia de vida e de histórias. Ela é a cara do Brasil, a carteira de identidade do povo brasileiro. 

Icó é tombada pelo IPHAN, abençoado por Deus, pelo Senhor do Bonfim, Nossa Senhora da Expectação, São José... Mas quer ser protegida pelo ONU, pelo Unesco... E merece, pois é maravilhosa. Veja você mesmo e diga se não é a nossa cara!

Alí é o Mercado Municipal. Tem de tudo: rapadura, coco verde, maduro, ralado, doce de coco, alficin e chouriço... 

Tem buchada de bode, tem panelada, mucunzá, baião-de-dois, galinha ao molho pardo e peixe de todo tipo... 

Pra vestir também tem de tudo: de roupinha de menino nascido, passando pela indumentária de vaqueiro até o fardamento do soldado Ticó... 

Pra vender até santo tem... Tem Padim Ciço pra vender, tem Senhor do Bonfim, Nossa Senhora do Rosário, da Conceição, das Dores... Tem vela, tem rosário, feijão verde, macaxeira... Ovo... ovo de peru, de galinha e de pato... 

Tem pinto de capote, burrego, bacurim.. Pano pra fazer roupa tem, tem rede, cobertor, colar pra mulher rica e pra mulher pobre... Tem artesananto: boi de barro, galinha de barro, panela de barro, tigela de barro. Arreio de cavalo, tem... Cabresto, gangalha, corda, carretel, estrivo... Até cambito tem... Vixi Maira, tem de um tudo!

Olhe lá... Casa de Câmara e Cadeira. Foi construída antes da Confederação do Equador. Só a chave da cadeia pesa mais de meio quilo! Ali estiveram presos rebeldes da Revolução Pernambucana. 

Dona Barbara Alencar, avô de José de aAencar, o escritor lido no mundo todo,  ficou presa, uma noite, quando era arrastada pelo Exército até Fortaleza; cem léguas atrás dos cavalos fornidos. Uma das maiores heroínas que o Ceará já viu. 

Digo que é uma das, porque o que não falta no Ceará e mulher valente: Dona Tomásia, Iracema, Dona Guidinha do Poço, Maria Francisca Italiana, Neusa Pinto Nogueira e mais um bocado delas! Pois bem, como eu ia dizendo, também ali se passou um milagre. Um dos presos da revolução fracassada [o Ceará queria ser um país independente], ao ouvir a voz de fuzilamento, apegou-se com o Senhor do Bonfim: “Valei-me meu senhor do Bonfim! Eu não quero morrer não!’. 

Diz-que o Capitão gastou toda a munição do pelotão, uma saraivado de balas, todas as balas que tinha a Comitiva do Rei... Nem uma, nem umazinha atingiu o preso. Saiu ileso da chuva de bala contra ele disparada! E foi tudo verdade: Senhor do Bonfim o protegeu com o manto sagrado e banhado no sangue santo do salvador da gente humana! Todo mundo aqui no Icó sabe disso, aconteceu alí no terreiro da Cadeia. Quem não viu foi por que não quis. É a mais pura verdade.

O Cruzeiro, a Matriz e o sobrado do Canela Preta. Este era terrível! Temido até pelos mais corajosos e poderosos de Icó. 

Militar linha dura, controlava a cidade na ponta do chicote, no fio do punhal de ponta fina e cabo de prata e, como não podia deixar de ser, no cano e no estrondo do bacamarte! 

Diz-que ele tinha um hábito de o tempo todo bater o chicote contra o cano da bota longa e preta. Daí surgiria o apelido pelo qual é lembrado até hoje: Canela Preta! Caìra em desgraça por conta de revezes políticos, fora degredado para o Amazonas, mas retornara, já velhinho, ao Icó, que o viu nascer e morrer.

Igreja do Padroeiro de Icó, Senhor do Bonfim. Este é bom, justo, leal e não deixa um filho morrer à míngua. Salvou a cidade de um dragão imenso, que soltava fogo pelas ventas e pela boca... 

Queria comer os sobreviventes da grande enchente... Enchente que trouxera o próprio dragão. O nosso Senhor do Bonfim, protetor e justo, travou um duelo com o monstro e venceu. 

Venceu o monstro, acorrentou-o, encantou-o, transformou-o em papagaio e prendeu-o debaixo do altar! Tanto é que os icoenses, em agradecimento, construíram uma igreja bonita e grande para ofertar ao Senhor do Bonfim. 

Mas o Senhor do Bonfim não a quis para si; agradeceu: “Eu não posso sair da minha casa. Vai que o monstro se solta... Não quero arriscar o bem-estar de vocês. Gostei da igreja, mas quero que vcs dêem-na ao meu pai José. 

povo compreendeu e deu a igreja a São José. Diz-que aconteceu uma festa tão grande, mas tão grande, que o Largo do Théberge nunca viu igual. Até o céu mandou chuva. As ruas encheram-se de gentes a banharem-se nas águas de Deus.

Alí esta a Igreja de São José, o pai de nosso Senhor do Bonfim. Foi este o presente que o bom filho deu ao pai. A casa de um fica de frente à casa do outro! Tá vendo aquele sobradinho à esquerda?  

É a Casa Paroquial. Logo um pouquinho mais adiante tem um beco, passa uma rua, e se chega no Rio Salgado... Aí é só tibum na água quentinha! À direita da foto, lá adiante, vê-se a Igreja dos Homens Pretos, mas é quando tinha preto no Icó. Foram expulsos. 

A cidade foi crescendo, os brancos foram precisando de espaço... Expulsaram os negros. Icó parece Tietê. Icó e Tietê se parecem comigo; eu expulsei Edilberto Paludeto do Tietê Eleições 2012...

Aí... Eis o Rio Salgado, que mesmo morrendo envenenado, é maravilhoso! Foi este que encheu tanto, mas tanto, que quase acabou com tudo... Tanto pelas águas quanto pelo mostro que trouxe... 

Diz-que que o monstro, que continua transformado em papagaio, as vezes voa pela cidade... O nosso Senhor do Bonfim permite, mas fica de olho! O papagaio é astuto, traiçoeiro. Jamais sai da jaula sem que seja amarrado pelo poder do Todo Poderoso Senhor do Bonfim.

Veja lá: o Louro num raro momento em que nosso Senhor do Bonfim lhe permite desencantamento... Cuidado, fale baixo! Silêncio! 

Viu, todo ano tem a Festa do Senhor do Bonfim, no Icó. Este ano vai ser ainda mais bonita porque vai ter o Icozeiro, festival da cultura local. Vai ser porreta. Vai lá! 



* Texto escrito e enviado pelo escritor Antônio Jota [blog Tieteiro]
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Publicado por Jornalismo

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